Autismo
A inclusão é para mim o campo onde travo as mais árduas batalhas, seja no âmbito do convívio social geral, seja no âmbito escolar. Quando saímos do seguro casulo familiar às lutas não dão tréguas.
Com relação à inclusão escolar, eu diria que é o mesmo que procurar água no deserto, tirar leite de pedra e tudo o que de mais difícil e impossível pode haver. Ainda mais neste País em que educação só é prioridade nos discursos políticos que não saem do papel.
Meu coração chega a doer fisicamente quando me deparo ou penso na nossa realidade. Embora tenha que confessar que particularmente tivemos sorte de encontrar uma instituição de ensino disposta a tentar desenvolver um trabalho sério de inclusão e acolhimento. Muita sorte mesmo! No Brasil isso é à exceção da exceção, quando deveria ser algo plenamente viável se considerarmos o fato de que um em cada cem crianças é portadora de algum grau de autismo. Foi este sentimento de indignação que me impulsionou a preparar o próximo texto:
Inclusão Escolar: O hiato em que vivemos
Para quem tem filhos, a temporada de matrículas, pré-matrícula, entrevistas, avaliações pedagógicas, provas para conseguir uma vaga, é um período que muitas vezes eleva a ansiedade das crianças e de seus pais a níveis estressantes.
Na maioria dos casos a escolha da Instituição de ensino gira em torno de critérios gerais, tais como, custo da mensalidade, método de ensino, oferta de atividades extracurriculares e localização. Para outras famílias, contudo, estas questões são meramente secundárias porque elas estão preocupadas com algo bem mais vital e complexo como a aceitação, o acolhimento de filhos que, por razões de natureza neurocognitivas ou psicomotoras, encontram-se em uma lacuna entre o desenvolvimento dito “normal” e aqueles que têm pouca ou nenhuma chance de se desenvolverem pelas propostas regulares de ensino.
Aos primeiros o universo ilimitado das escolhas, aos últimos, ainda que em menor escala, a possibilidade das escolas especiais. E o que fazem as famílias cujo filho encontra-se no meio deste caminho? Onde encaixar o cada vez mais numeroso grupo de crianças com transtornos de ansiedade, déficit de atenção, hiperatividade, bipolaridade, dislexia, dificuldades motoras que a maioria das escolas friamente rejeitam?
Por terem a sua capacidade cognitiva preservada, elas são capazes de se desenvolverem, mesmo que para isso necessitem de uma forma ou um tempo pouco diferenciado, motivo pelo qual não se enquadrariam nas propostas específicas das Escolas Especiais.
Geralmente, estas crianças necessitam muito mais de acolhimento, boa vontade e comprometimento do que grandes mudanças pedagógicas. Por vezes, basta proporcionar adaptações como uma formatação individualizada dos textos a serem estudados, a liberdade de escrever com o tipo de letra que lhe seja mais fácil, um tempo próprio para entrega dos trabalhos, em certos casos a aceitação de uma mediadora profissional em sala de aula ou basta apenas permitir que este aluno realize seus exames individualmente, em sala separada para que não haja comprometimento de seu nível de atenção e o problema da inadequação estaria resolvido.
Mas, para isso é preciso uma dose de boa vontade e a realidade que encontramos é a da rejeição sustentada pela criação de dificuldades levantadas como intransponíveis e alimentadas pelo preconceito e pelo comodismo daqueles que, investidos da nobre função de educar, se apresentam exclusivamente como administradores de um negócio cujo objetivo se restringe unicamente a números e lucros.
O renomado educador Daniel Pennac, nascido no Marrocos, professor de língua Francesa em Paris e autor de diversas obras sobre educação e pedagogia, dedica sua longa vida profissional a resgatar estes desvios de padrão que, como ele próprio, são muitas vezes levados a acreditar serem lerdos e incapazes, mas que segundo ele, necessitam sobre tudo de acolhimento por parte do sistema educacional, cabendo ao professor, como quem cuida de pássaros, reanimá-las, cuidar delas e pô-las a voar novamente, desta vez direto rumo a seu futuro (Diário de Escola, pág.235/236 – Ed. Rocco).
A princípio, é muito mais fácil trabalhar o universo do lugar comum. O novo, o diferente, desafia, assusta, por vezes, expõem nossas deficiências, em contrapartida, nos faz repensar valores pré-estabelecidos, ver por ângulos inimagináveis, quem sabe, evoluir.
A história da humanidade esta repleta de casos que computam à genialidade dos considerados inadequados, loucos e diferentes, boa parte da responsabilidade pelo estágio evolutivo em que nos encontramos. Ressalte-se que estes cérebros costumam apresentar aptidões especiais que lhes conferem habilidades intelectuais inalcançáveis pelas pessoas ditas normais. É da mente desses desvios de padrão que por vezes saem soluções para as grandes questões científicas que nos assombram ou que artisticamente mudam os padrões culturais de sociedades.
Outro fato que podemos observar também é o aumento considerável desses casos nos últimos tempos, consequência talvez dos efeitos da vida moderna ou quem sabe seja a mente humana entrando em uma fase de mudança evolutiva. Atualmente, difícil alguém que não convive ou conhece alguém que tenha em sua família crianças nessa situação.
Concluímos, então, que, num mundo globalizado, impossível não se deparar com essas realidades, que impõe a necessidade de nos prepararmos para lidar com elas a qualquer tempo, auxiliando, acolhendo, tirando ensinamentos valiosos para nossa vida pessoal, profissional e social. Lapidando-nos como pessoas antenadas com o nosso tempo.
Feliz aquele que em sua formação educacional tem ou teve oportunidade de conviver com essas diferenças, gerenciar, crescer com elas, no mínimo se tornarão cidadãos socialmente mais preparados.
A pergunta que fica se dirige a grande maioria das Instituições de Ensino. O que falta para que se apercebam desta realidade?! Não duvidem que este já é um diferencial, um requisito importante para que muitos pais optem por escolher esta ou aquela Escola para educar seus filhos.
Roberta Haude
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