
Uma das primeiras coisas que você faz, instintivamente, quando recebe o diagnóstico de que seu filho tem autismo, é passar um filme na cabeça com cenas do nascimento, primeiros dias, semanas e meses para tentar saber em que momento o trem saiu dos trilhos. O Luca, que vai fazer 4 anos daqui a três semanas, tem o chamado autismo regressivo, ou seja, ele vinha se desenvolvendo normalmente até mais ou menos os dois anos de idade, quando teve uma regressão brusca na fala, no convívio social e passou a ter comportamento arredio.
É importante que nós, pais, fiquemos de olho nas etapas de desenvolvimento de uma criança normal. Várias vezes eu me peguei dizendo para mim mesma: "mas como eu, uma pisciana ligadíssima em tudo que é alternativo, diferente e espiritual não percebi que o Luca não fazia certas coisas que deveriam ser normais no seu desenvolvimento?"

Não quer dizer que fatalmente a criança terá algum distúrbio ou síndrome se deixar de fazer as coisas acima e outras mais que reza o manual de desenvolvimento dos neurotípicos. Mas é um sinal de alerta e não devemos deixar nosso instinto de lado porque a vizinha diz que ele tem seu tempo, que é bobagem e que você está ficando neurótica. As pessoas dizem isso com a melhor das intenções, gente, não é crime... não é por mal..
Mas é que é nosso papel de mãe ser neurótica! Faz parte do pacote. Até um ano depois do diagnóstico do Luca, a pediatra original dele (que agora não é mais), jurava que ele não estava no espectro autístico. Me chamava de doida para mais. Continuei com ela algum tempo ainda, porque confesso que adorava ouvir ela dizer isso toda vez que íamos ao consultório. Era como um bálsamo, uma terapia. Mas comprova que a maioria dos pediatras e muitos neurologistas não estão preparados para identificar os sintomas mais típicos, muito menos diagnosticar.
A culpa, em parte, não é deles. É um diagnóstico difícil mesmo. É clínico, não é laboratorial. Dependendo da criança, não dá para fechar em uma ou duas consultas. É por isso que eu falo que a os maiores especialistas em Luca somos eu e o Daniel (maridão). Somos especialistas com pós-graduação, mestrado e doutorado. Somos nós que, em última instância, definimos quais serão as terapias, se queremos ou não medicá-lo agora, se vamos ou não fazer um tratamento biomédico, quantas horas de terapia são ideais para ele render o esperado, se queremos uma escola inclusiva ou especial, o que esperar de cada intervenção, de cada etapa....
Os diagnósticos, há até pouco tempo, só eram feitos a partir dos cinco anos de idade, normalmente quando a escola alertava os pais de que algo estava muito fora do normal. Muitas vezes, os pais já desconfiavam, mas com a falta de um diagnóstico médico, acabavam empurrando para a escola dar um jeito na sua criança diferente, até que se deparam com a realidade quando o filho já desperdiçou os anos de ouro do aprendizado dele.

O Luca foi um bebê quietinho... podia ficar horas brincando no berço sozinho, sem reclamar. Eu pensava: "que benção, meu Deus... que bebê tranquilo, bonzinho, ao contrário do Thiago que sempre foi uma espuletinnha". É uma armadilha. Bebês têm de reclamar quando estão com fome, sede e com a fralda cheia. Tem também o oposto: bebês que não se acalmam de jeito nenhum, nem no colo da mãe, que só choram, gritam, dormem pouco, parecem estar fora de si. É um alerta também. O desconforto contínuo é um sinal de que algo no comportamento dele não vai bem. Verificar se o bebê olha no seu olho quando está sendo amamentado é o primeiro item da lista do alarme. Eu, sinceramente, não me lembro. Mas, se não me lembro, é porque não me chamou a atenção, então, provavelmente ele olhava para mim durante a amamentação... O que hoje me deixa chateada comigo mesma é não ter dado atenção aos sinais de que ele pouco se importava se estava numa festa ou na tranquilidade do seu quarto. Durante os parabéns nas festinhas dos amigos, o Thiago, que hoje tem 5 anos, era o primeiro a chegar na mesa. Luca fugia. Demorei demais a dar importância ao atraso da fala, apenas com 2 anos. Mas muita gente, inclusive a pediatra, me chamava de doida-neurótica e me mandava ter paciência quando eu já queria ele falando com um ano e meio, um ano e 8 meses...
Meu conselho: mamães, brinquem demais com seus filhos, estimulem ao máximo, observem os marcos do desenvolvimento e vejam se seu filho está dentro deles. Não dêem as costa aos seus instintos. Se você for deixar com a babá para trabalhar, por exemplo, se certifique que ela não está deixando ele na TV o dia todo.... Deixe seu marido, mãe ou sogra (não foi meu caso, viu gente..rs) te chamar de louca. Não arranca pedaço. Investigue, vá a médicos especialistas no assunto, médicos que saibam identificar atrasos, porque não são todos que sabem.... Fuja das consultas de plano de saúde de 15 minutos. É impossível ver qualquer coisa em 15 minutos. Anote qualquer comportamento estranho ou diferente para comentar com o seu médico na hora da consulta. Use o google, o facebook. Informação nunca é demais. Não estou dizendo que devemos ficar malucos procurando sintomas de autismo. Mas podemos esbarrar em outros tipos de atraso como TDA, hiperatividade, dislexia, asperger, ou um atraso leve que pode ser estimulado em tempo e não deixará nenhuma sequela no futuro... lembre-se que não existe ninguém que entenda mais do seu filho do que você.

Beijo especial sempre aqui, Na pracinha! (5/06/2012)
fonte: http://www.napracinha.com.br/2012/06/maes-especiais-porque-eu-amo-einstein-e.html
